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Centelhas de Luz - Destaque pra vocês!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Eles sempre vão nos impressionar!

APARÊNCIAS E SULCOS ENGANAMimagem:
CORTESIA DE ERICH D. JARVIS


Ao compararmos o cérebro de aves que cantam (canoras) com o de um mamífero, duas constatações chamam a atenção: a forma é similar, mas os sulcos do órgão das aves são bem menos proeminentes. Durante muito tempo, a idéia de que muitas circunvoluções significam funções cognitivas superiores levou os cientistas a pensar que as aves tinham poderes mentais limitados. A opinião foi fortalecida pelo equivocado pressuposto de que o cérebro dos pássaros corresponde a regiões do cérebro dos mamíferos as quais regem funções básicas relacionadas ao comportamento reflexo.

Pesquisas mais recentes indicam, porém, que o pallium, parte maior do cérebro das aves, opera junto com estruturas abaixo dele para controlar comportamentos complexos. Quanto maior o pallium, mais inteligente o animal. O córtex cerebral dos mamíferos se originou dessa região e, quanto maior sua proporção em relação ao resto do cérebro, mais desenvolvida a capacidade cognitiva.

Embora o sistema nervoso das duas classes de animais seja estruturado de forma bem diferente, há muitas semelhanças funcionais. Várias partes do cérebro são conectadas por caminhos neurais com funções similares. Quando os papagaios aprendem a emitir novos sons, por exemplo, as estruturas ativadas são análogas às estimuladas em humanos que aprendem a falar. A equipe de pesquisa coordenada pelo neurologista Erich D. Jarvis, da Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte, levou em conta essa descoberta para reformular a nomenclatura que descrevia as regiões do cérebro das aves. Os cientistas substituíram antigos termos (acima) que são homólogos às regiões correspondentes nos mamíferos.


VALOR DO AMANHÃ

O planejamento e a preocupação com o futuro sempre foram considerados habilidades exclusivas dos seres humanos, ou pelo menos dos primatas. Coisa do passado: cientistas britânicos demonstraram que uma espécie de ave é capaz de se programar para o futuro, segundo estudo publicado na Nature em fevereiro deste ano.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Cambridge, Reino Unido, coordenada pelo biólogo Nicola Clayton, investigou o comportamento do Aphelocoma californica (foto), pertencente à família dos corvos e habitante do oeste dos Estados Unidos e de parte do México. Em diversas situações de cativeiro, foram simuladas situações de abundância ou escassez de alimento. Observou-se que os animais estocavam mais comida sempre que eram submetidos à segunda condição. Além disso, a poupança alimentar era nutricionalmente bastante variada. “Os resultados sugerem que essas aves são dotadas de processos cognitivos complexos capazes de abranger os conceitos de passado, presente e futuro”, afirma Clayton.


INTELIGÊNCIA SELVAGEM
imagem:© PRADEEP KUMAR SAXENA/123RF

Alex e seus amigos realizam façanhas mentais impressionantes, mas já viveram muito tempo no cativeiro e receberam muitos estímulos. Que dizer dos papagaios silvestres? A ordem dos psitaciformes, à qual pertencem, inclui diversas espécies de vida longa: os periquitos australianos vivem entre dez e 15 anos e as araras podem passar dos 50 anos. Boa memória é essencial, pois os pássaros precisam lembrar o local das diferentes fontes de água e de alimento, bem como dos ninhos e dos companheiros. A longevidade significa também que eles presenciam grandes mudanças ambientais, como cheias e secas. Para sobreviver, é preciso certo grau de flexibilidade mental, sendo necessário lembrar experiências anteriores para se adaptar a novas situações.

Quase todos os papagaios vivem em bandos cuja estrutura se assemelha à dos grupos de primatas, o que exige um alto nível de inteligência social. As aves têm de ser capazes de distinguir entre muitos indivíduos e interagir de forma apropriada, com base em experiências prévias. Como os casais humanos, os de papagaios passam bom tempo juntos mesmo quando não estão cuidando dos filhotes. Em algumas espécies, o par pode até aprender a cantar junto, formando um dueto em que cada indivíduo emite notas para o outro.

O uso de ferramentas também foi observado em várias espécies de aves. Para marcar território, os periquitos machos mordem galhos e os batem no tronco das árvores. Outras espécies usam ramos secos e pedras pequenas para afugentar aves predadoras. A manipulação de objetos, como pedaços de madeira e sementes, também é usada pelos mais jovens para explorar o meio e aprender comportamentos sociais, isto é, os pequenos papagaios também gostam de brincar. E é muito provável que eles sejam capazes de aprender ao longo de toda a vida, ampliando constantemente seu baú de experiências.


PARA CONHECER MAIS
Avian brains and a new understanding of vertebrate brain evolution.
E. D. Jarvis etal., em Nature Reviews Neuroscience, vol. 6, nº 2, págs. 151-159, 2005.

The Alex studies: cognitive and communicative abilities of grey parrots.
Irene Maxine Pepperberg. Harvard University Press, 2002.

Fundação Alex.
www.alexfoundation.org.
Christine Scholtyssex É bióloga e jornalista. - Tradução de Marcel Crovelli

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