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Centelhas de Luz - Destaque pra vocês!

domingo, 14 de setembro de 2008

Sou um porco sendo transportado ao matadouro‏


Para meu filho Paulo

Quando olhei de cima do caminhão para o carro que estava ao lado, percebi que o moço estava chorando. Coitado, ele não podia fazer nada e sentia o meu desespero. Estou preso em um caixote com meus irmãos e mal conseguimos respirar.

Nós dois sabemos que estou sendo transportado para o matadouro e que vou ser cruelmente assassinado para acabar como refeição dos humanos. Minha breve vida até que foi boa.

Nasci em um sítio onde tinha espaço e a companhia de minha mãe e meus irmãos. Nunca passei fome e até conseguia me divertir e ser feliz. Poucas pessoas sabem, mas os porcos são até mais inteligentes do que os cães, que foram eleitos como os melhores amigos dos homens. Nós entendemos comandos e rapidamente nos habituamos a tudo que ocorre a nossa volta: sabemos a hora das refeições e nos apegamos a quem nos alimenta.

Na casa onde morava, as pessoas nos davam nomes e nós tratavam como animais de estimação. Tinha um menino, filho do dono do sítio, que gostava especialmente de mim: ele me procurava, me chamava de Totó, me fazia um carinho e sempre me trazia um petisco, ele me protegia e escolhia o melhor pedaço de fruta para me dar. Ele me ensinou a amar.

Quando minha mãe foi embora, eu o vi implorando a seu pai que não a levasse. Depois, ele veio até onde eu estava com meus irmãos e nos abraçou enquanto chorava. Pela primeira vez entendi que meu destino estava decidido e que eu estava marcado para servir aos humanos. Não em vida, mas com a minha morte.

Depois deste dia nunca mais fui feliz e comecei a me preparar para o triste dia da minha partida. Nós dois, eu e meu amigo, perdemos a inocência: ele também nunca mais foi natural e agia como se estivesse sempre me pedindo desculpas.

Depois disto, ele deixou de comer carne e procurava influenciar todos os amigos.

Pouco tempo depois, eu sabia que tinha chegado minha hora, pois meu amigo me procurou aos prantos e me prometeu que iria lutar por todos os animais que têm direito à vida: porcos, vacas, galinhas, coelhos, cabras, peixes... Esta foi a última vez que o vi e guardo na lembrança seu amor e sua dor. Agora, preso neste caminhão e partindo para meu destino, vi um olhar parecido com o dele naquele carro ao lado.

Ainda são poucas as pessoas que entendem que não é preciso haver mortes para que o ser humano sobreviva. Para estes visionários eu deixo meu amor e a esperança de que eles consigam transmitir suas descobertas ao maior número de pessoas possível.

Sei que a vida dos seres humanos irá melhorar no momento em que deixarem de matar para continuar vivos. Para aqueles que não ainda não desenvolveram sua sensibilidade, eu só posso dizer que minha carne não irá lhes fazer bem, ela carrega toda a revolta que me consome na hora da minha morte.

Maria Augusta Toledo

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