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Centelhas de Luz - Destaque pra vocês!

quinta-feira, 20 de março de 2008

Tingo, para sempre...

Por Marco Ciampi (*)

Presidente da ARCA Brasil fala sobre sua relação com o mascote que marcou a cena da proteção animal


A despedida de um companheiro, momento único e pessoal, só a cada um cabe viver seu significado. E também compreender o que se passa com os que lutam pela saúde ou que um dia já disseram adeus a esses amigos de longa data.

Tingo permitiu o resgate de sentimentos e conciências. Como muitos de nós, eu era vítima do trauma pela perda de algo muito querido. Em minha adolescencia, um dia Black percebeu quando alguém deixou sem travar o portão que ele já sabia abrir com o focinho, como o fazem tantos cachorros (os gatos têm outros meios) e foi explorar o mundo. Ao longo dos anos, a perda desse animal cristalizou um sentimento - oculto para mim - de quem jamais desejaria passar por aquilo de novo, fechando-me sem saber à idéia de um novo mascote.

Sou um profissional da proteção animal, acostumado a ouvir a pergunta “mas o que é mesmo que você faz?” em conversas onde poderia jurar que essa dúvida não caberia. Pode-se imaginar, então, o que significava para mim comentários do tipo, “Mas é apenas um cachorro...”, que ouvi muitas vezes em relação ao Tingo.

Entre os conceitos e atitudes que a ARCA Brasil ousou assumir ao longo de seus 15 anos está a politica de não recolher animais. Qual seria então, o papel reservado àquele cão, que um dia surgiu em meu caminho nas ruas do Embu, praticamente em estado terminal, quando realizávamos um evento marcante na história da proteção animal no país? É bem verdade que minhas tentativas de encontrar um dono para ele falharam uma a uma, durante quase um mês, tempo em que ficou internado sob os cuidados do veterinário e hoje meu amigo, Dr. Erik Rodrigues. Aos poucos, Tingo adquiriu uma força simbólica tremenda, que se refletia no carisma e na beleza daquele animal.

Como no dia que ele roubou a cena diante das câmeras da TV Cultura, durante a feira de voluntariado no Colégio Dante Alleguieri. Ele entrou em um momento estratégico da palestra e, lentamente “cumprimentou”, uma por uma, as pessoas presentes, para delírio de todos. Tingo tinha gestos de extrema graça, com isso todos concordavam...

Nos últimos 5 meses, ele não conseguia andar ou sequer se levantar. Seus membros ficaram paralisados por causa de uma compressão medular (uma hérnia formada ao longo dos anos ou por algum trauma em sua vida pregressa). Essa condição explicou, quase ao final de sua vida, a “preguiça” em caminhar, sua lentidão e letargia, posteriormente minorados pelos protetores de articulação, que devolvem a alegria de viver a tantos peludos que sofrem com artrose.

Como em tantos outros temas, a Arca Brasil lançou luzes no país sobre a eutanásia, matéria tratada com reservas nos meios de controle de zoonoses e veterinários, ou passionalismo e desconfiança, pela proteção dos animais. Tida por muitos como uma decisão humanitária em relação a um animal cuja qualidade de vida está comprometida. Felizmente, suas funções vitais e comportamentais se mantiveram intactas durante o período em que lutou para viver, tudo assistido por uma verdadeira junta médica.

Um pensamento de conforto é lembrar que ele soube que era amado. O suficiente para que se permitisse fazer manha nos últimos tempos, choramingando pela idolatrada comida, que cada vez mais eu aprimorava. Sem conseguir se levantar nos últimos 5 meses de sua vida, ele aprendeu a protestar, sempre que o cheiro chegava até ele e até quando queria apenas um pouco mais de companhia.



Eu gostava de dizer que ele era como o Romário, que se fingia de morto para fazer o gol. E ai se outro cão, mesmo de maior porte, se aproximasse de seu território ou de mim. Ele mostrava toda a atitude dos tempos em que disputava um naco de sobrevivência nas ruas de Embu. Mas nunca o vi chegar às vias de fato, era só jogo de cena. Ele era da paz, a ponto de brincar como criança com o gato Felipe (foto), em um desses momentos de graça e comunhão que só a natureza pode oferecer.

(*) Marco Ciampi é presidente da ARCA Brasil

Agradecimentos eternos aos Dr.s Rosangela Ribeiro, Paola Lazaretti, Márcia Jerico, Julia, July,e Franz Aoki. Aos seus amigos Vinicius, Talita, Anna, Naia, Felipe, João Luis, Ana, Mila, Cid, Rose. Dara, Karlota, Silvia, Natália, Diva, Bruno, Eugenia Flavia, e, mais íntimos, Cynthia e Ivani, que participaram intensamente do processo da conquista e manutenção da saúde e alegria de viver de Tingo. E também à Holly, Susan, Mike, Julio, Karla, Rita, Irvênia, Thais, Rogério, João e todos os amigos e colaboradores da ARCA, que enviaram mensagens tão belas e cheias de sentimento.

“Há um silêncio, que fala mais alto que qualquer palavra, e que pode ser ouvido. Se você quiser escutar...”

Cathy Kinsman

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